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... exige um estudo cuidado para aqueles que tanto gostam da sua caça, possam prossegui-la amanhã
Javali que futuro?
 

     

Autor: Filipe Pedroso de Lima Domingos

08-03-2007

 

   
Fala-se hoje com muita acuidade se o efectivo de javalis estará em progressão ou em regressão no território Nacional. Este assunto tem tido uma discussão acalorada no Fórum do Portal Santo Huberto nos últimos meses, bem como nas revistas da especialidade, agora que a época de montarias terminou e as esperas se aproximam, é um bom momento para abordarmos esta temática.

Há quem defenda que o seu efectivo estará em regressão, pois nas manchas onde sempre existiram em quantidade diminuíram, sendo esta constatação verificada nos quadros de caça apresentados nos finais das montarias, quer em quantidade quer em qualidade. Nas esperas também se constata que a qualidade estará a diminuir, os grandes navalheiros já não aparecem. E quem o diz, são pessoas com experiência de muitos anos e que à caça têm dedicado muito tempo da sua vida, uns sendo apenas amantes desta nobre arte e outros que exercem profissionalmente esta actividade.


Mas há também quem defenda que estará em progressão, pois embora reconheçam que em algumas zonas haverá uma diminuição, o que é verdade, é que em muitos locais onde não existiam de este a oeste, de norte a sul do País, o javali fez a sua aparição, verificando-se que os quadros de caça apresentados nas montarias realizadas são compostos com números interessantes. Igualmente pessoas conhecedoras e experientes defendem esta tese.

Onde estará a razão? Se calhar ambas as correntes de opinião terão alguma razão, sendo certo que este assunto merece uma reflexão e estudo de todos nós, agricultores, gestores de caça, caçadores, homens de ciência, das Universidades mais vocacionadas para estes assuntos, (e existem algumas certamente), na procura de alguma conclusão que possa dar suporte à caça sustentada desta espécie que é a rainha da caça maior em Portugal.

A diminuição das espécies de caça menor, particularmente o coelho, conjugada com o aparecimento em bom número dos javalis trouxe para a montaria muitos caçadores, onde me incluo, levando ao aumento exponencial de montarias aos javalis no País. Por este facto, começou a existir uma grande pressão sobre esta espécie, que exige um estudo cuidado para aqueles que tanto gostam da sua caça, possam prossegui-la amanhã, sustentadamente.

Todos sabemos que não há nenhum sábado, domingo e feriado de Outubro ao final de Fevereiro em que não existam montarias por este Portugal. As esperas têm também cada vez mais adeptos. A procura existe por isso há que lhe dar satisfação a qualquer preço, não existindo em muitos casos um conhecimento dos efectivos existentes, de modo que os abates tenham como suporte essa realidade, não se abatendo o que não se deve. Há esta preocupação? Eu modestamente digo que na grande generalidade não há.

Por ser verdade, tem que se dizer que há gestores de zonas de caça que fazem uma gestão equilibrada, sustentada em censos credíveis que lhe dão suporte, pois embora não tenha dados objectivos para o dizer com certezas, tenho a percepção pelo que vejo no terreno, que infelizmente são uma minoria.

Muitos, aproveitando esta procura querem é vender portas para realizar dinheiro que dão suporte aos orçamentos das zonas de caça, diminuindo assim as quotas dos seus associados. E digo associados pois embora seja ilegal, muitas associativas realizam montarias vendendo portas. Eu próprio também já tenho participado em algumas destas montarias. Mas este tema é para uma outra discussão.

Pode ser polémico o que vou dizer, mas há também um factor que paradoxalmente ou talvez não, teve também grande influência na pressão que hoje existe sobre o javali. E este factor foi o ordenamento do território estando hoje praticamente todo o País constituído em zonas de caça dita ordenada. Eu muito sinceramente também não sou um adepto do tipo de ordenamento seguido, embora seja adepto do ordenamento. Esta é também uma discussão que poderá ter interesse mas não agora nem aqui.

Mas como atrás dizia, quando no território Nacional não era permitido reservar mais do que 50% de cada Concelho, salvo as excepções que estavam previstas na Lei, existindo os chamados terrenos livres, apesar do furtivismo existente que era e é muito, permitia que nesses terrenos os javalis tivessem algum recato e sossego, pois a agricultura que hoje existe, ou por outra que não existe, potenciou as grandes extensões de manchas florestais e terrenos incultos onde esta espécie encontrava de certa maneira o espaço ideal para se defender e reproduzir. Nestes terrenos não havia montarias nem esperas, funcionando como autênticos santuários.

Hoje como resultado do ordenamento, todo o País está práticamente coberto com zonas de caça, sejam Associativas, Turísticas, Municipais ou Nacionais. Naquelas em que os terrenos tenham aptidão para fixar javalis, e são muitos pelo que atrás já referi, realizam-se montarias e esperas em todo o território, indiscriminadamente, não permitindo que o javali tenha sossego de qualquer espécie. São as esperas quase todo o ano, as montarias nas mesmas manchas muitas vezes mais do que uma vez por época, todos os anos sem descanso. Como é que o infeliz javali pode sobreviver a esta pressão incontrolável? Lá vai sobrevivendo apesar de tudo, pois tem intrinsecamente uma grande capacidade de defesa e de reprodução, pois em condições relativamente normais, o seu crescimento pode atingir os 100% anuais. Só este factor é que tem permitido, que o javali tenha a progressão que tem tido. Quando os terrenos eram livres, não tenho qualquer dúvida, apesar do furtivismo, os abates efectuados por essa via, não tinham nem de perto nem de longe o impacto nas populações existentes e seus habitats, sendo desde logo a pressão muito menor.

Mas a realidade é esta por isso temos que viver com ela e procurar as soluções mais adequadas para este novo desafio.

Sobre este tema mas num sentido mais lato, a Federação de Caça e Pesca da Beira Litoral editou em Maio de 2006 um livro com o título “ Gestão das Populações Cinegéticas e dos seus Habitats” coordenado pelo Professor Doutor Carlos Fonseca da Universidade de Aveiro. A publicação deste livro ocorreu nas Primeiras Jornadas Cinegéticas da Federação atrás referida, em cooperação com a Região de Turismo do Centro, na pessoa do seu Presidente Dr. José Manuel Alves, um dos mentores das montarias do Centro (infelizmente já falecido), da Câmara Municipal de Penela e da Associação dos Caçadores do Concelho de Penela.

O Dr. Carlos Fonseca, que como é sabido, é das pessoas em Portugal que mais tem estudado cientificamente o javali e o veado, neste livro é o autor do capítulo
“Gestão das Populações de Javalis e Seus Habitats”.
Este livro e este capítulo em particular é uma leitura indispensável que aconselho a todos, pois muitos ensinamentos lá colheremos com toda a certeza, para a reflexão que aqui estou a fazer.

Na minha opinião a razão da diminuição dos efectivos naquelas zonas onde em anos passados existiam em bons números, deve-se à caça intensiva seja em montarias seja em esperas, sem qualquer preocupação de fazer uma gestão em função dos efectivos existentes e ao furtivismo crescente. Já sabemos que nas montarias o que aparece nas portas sejam porcos grandes sejam pequenos são atirados, basta ver os quadros de caça nos finais das mesmas. Não existe nos caçadores da actualidade uma ética monteira. As esperas que segundo a Lei são permitidas para minimizar prejuízos, tornaram-se parte dos calendários, haja prejuízos ou não. Ainda com a agravante de o que se diz ser uma caça selectiva na procura daquele grande navalheiro, pelo que vejo em fotografias de esperas não é, pois fico com a ideia que o que aparece é atirado. Assim cada zona de caça desde que os javalis por lá se instalem começam a efectuar montarias e esperas mesmo, sem qualquer preocupação de conjugar com as zonas de caça limítrofes essas acções. Cada um por si à boa maneira Portuguesa.

Tenho já defendido, a exemplo de outras pessoas, que a caça neste caso ao javali, deveria ter uma gestão regional, fazendo-se censos o mais rigorosos possível, podendo então com esses dados saber quais os efectivos que se poderiam abater numa determinada zona. Quer em montarias quer em esperas.

O Dr. Carlos Fonseca no livro que atrás referi, chama a isto um Plano de Gestão Conjunto, o que permite transformar diversas zonas em uma Unidade de Gestão. Estas unidades de gestão na sua opinião deveriam ter entre 20 e 30.000 ha.

Se houvesse estes planos de gestão conjuntos, seriam definidos com rigor o que se poderia abater. Seriam devidamente programadas as acções de caça a levar a efeito, bem como os números permitidos abater nas montarias e nas esperas. Só assim será possível que a caça ao javali tenha futuro, pois se não se arrepiar caminho, devido à procura emergente teremos problemas de efectivos.

Parece-me também, embora haja quem defenda o contrário, que nos locais onde há esperas não deve haver montarias. Os locais em cada época seriam bem definidos para montaria e esperas.

Estes planos de gestão conjuntos, na minha opinião, pressupõem um gestor profissional devidamente qualificado. O que uma só zona de caça não tinha capacidade económica para fazer, pode essa unidade de gestão com a repartição de custos que essa contratação implica, fazê-lo, sendo uma mais valia, não apenas para a gestão do javali mas para toda a actividade cinegética da mesma.

Há também que dizer que a alteração da Lei na questão da não obrigatoriedade de guardas auxiliares foi um erro tremendo, que potenciou exponencialmente o furtivismo. Quem alvitrou esta solução, certamente com preocupações económicas, estará neste momento muito arrependido, pois com esta alteração andou-se para trás na fiscalização das zonas de caça. Aqueles que o reclamaram, hoje são capazes de imputar ao SEPNA e GNR a falta de fiscalização. Também com as unidades de gestão se pode rentabilizar o número de guardas necessários para o conjunto, que devidamente enquadrados pelo gestor profissional darão um elan de qualidade que tão premente é.

Como refiro na parte inicial, zonas há, onde o javali tem feito uma progressão evidente. Alguém pensava há uns anos atrás, refiro-me apenas à minha zona de residência, que os javalis existissem em números muito interessantes nos dias de hoje? Certamente que ninguém. Mas é verdade existem e podem manter-se, desde que não se cometam os erros de outros locais, caçando-os sem qualquer preocupação de gestão. O terem chegado mais tarde permite colher os ensinamento de outros, não cometendo os erros que estes cometeram. Nestes locais porque são uma presença relativamente recente, há que sensibilizar as zonas de caça para o que atrás venho dizendo, criando-se as unidades de gestão.

A não ser seguida uma orientação como a que venho defendendo ou outra qualquer que permita uma gestão sustentável, e tendo em conta no que diz respeito às zonas de caça municipais, os seus planos de exploração têm que ser aprovados pelos serviços de caça do Ministério da Agricultura, os quantitativos de jornadas previstas terão que ser passadas por crivo bem fino. Nas zonas de caça associativa, também essas jornadas deveriam ter uma autorização prévia, permitindo assim fazer o cadastro de todas as jornadas que se realizam nas diversas zonas. Quanto às turísticas e tendo em conta que são empresas comerciais, que têm como objectivo primeiro o lucro, parece-me que é do seu próprio interesse fazer uma gestão equilibrada, pois se não o fizerem não têm clientes e não conseguem vender as jornadas que lhes permita a obtenção dos lucros. Embora em última análise sejam sempre fiscalizadas pelos serviços respectivos.

Portanto globalmente e respondendo à questão se o javali estará em progressão ou regressão, embora esta minha opinião não esteja assente em dados científicos, penso que a população de javalis com flutuações resultantes de anos com mais alimento ou menos alimento, alterações de habitats devido à praga de incêndios ou outras, penso que não deve ter tido grandes oscilações, pois se numas zonas diminuiu noutras aumentou. Porém, se após um estudo credível e rigoroso, tanto quanto possa ser, se chegar à conclusão que o efectivo está a diminuir, enquanto não se implantam soluções como venho defendendo ou quaisquer outras, uma moratória na caça ao javali será uma solução a ponderar, pelo menos naquelas zonas onde essa diminuição for mais evidente.

Segundo os dados do Dr. Carlos Fonseca, existirão presentemente entre 30 a 40.000 javalis em Portugal, número este que tem aumentado todos os anos, segundo as suas estatísticas. É referido ainda que na última época venatória, penso que de 2004/2005, foi abatido um número estimado de 14.000 javalis.

Esta reflexão que aqui faço está assente em muitas dúvidas que me assolam, sendo as certezas poucas, estando apenas alicerçada no que venho constatando na realidade e por percepção. Seguramente que esta reflexão que aqui faço, colheu informação de outras pessoas que ao longo do tempo têm dado também as suas opiniões. Não sei se será útil ou acrescentará algo para a discussão, mas é a contribuição que entendi fazer.

Outras contribuições de pessoas entendidas se esperam, para um somatório de opiniões que permitirá que nada fique como antes, pois esta espécie e a sua caça têm futuro.

Aquelas organizações que estão vocacionadas para a caça maior, têm também uma palavra a dizer sobre esta matéria, diria mesmo uma responsabilidade, esperando-se também que o Ministério da Agricultura possa ser sensível às reflexões que se fizerem, fazendo implementar as medidas que se afigurarem como as mais correctas, doa a quem doer.
 

 
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