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Histórias de Caça

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O meu Companheiro de Caça
 

     

Autor: Gilberto Fernandes

13-03-2007 10:00:00

 

Muitos daqueles que irão ler estas linhas já não poderão desfrutar de algo que graças a Deus, eu ainda tenho o privilégio de poder desfrutar e ao mesmo tempo sentir um prazer inexplicável que é poder caçar com o meu maior amigo e companheiro. Esse homem é o meu pai.

Nunca pensei em escrever algo sobre este “homem” a quem devo tudo na vida, mas penso que será a altura ideal para o fazer pois ainda cá está para me acompanhar em muitas caçadas espero.


O pai, há cerca de vinte anos a trás preparando-se para mais uma espera

Nasceu no alto Alentejo e desde sempre caçou, sobretudo com o meu avô Fernandes. O meu avô caçou quase até morrer, não pelo “vício”, mas porque o meu pai, obrigava-o a acompanha-lo por montes e vales a trás das esquivas perdizes. Não o queria ligado apenas ao gado e á terra e a vê-lo “morrer” com o tempo.

Já passaram uns anos em que o meu avô nos deixou, mas ficaram as recordações de um homem de olho azul, as suas rugas na cara de muito trabalho no campo e os seus comentários calmos e sempre com uma certa dose de sabedoria. Era assim o meu avô Fernandes que muitas alegrias me deu quando em criança ficava de olho aberto junto á grande e típica lareira alentejana, “babado” a ouvir as histórias sem fim e comendo as bolotas doces assadas na brasa. Que saudades!!!



Eu e o meu grande amigo “lirão”

Com uma enorme paixão pela caça aos javalis o pai foi ao longo da sua vida de caçador acumulando uma experiência invejável para muitos em especial para mim.

Apesar de nunca se ter “especializado” em caçar grandes javalis e a aprofundar os seus conhecimentos através da leitura de livros da especialidade, foi acumulando um saber e cometendo erros atrás de erros sempre aprendendo, mas quem é que sabia alguma coisa de javalis há trinta anos a trás!

Abateu na sua vida um número invejável de javalis mas sempre respeitando por intuição própria o campo e os animais. Nunca o fez para desculpar as criticas que outros podiam ter mas porque dentro de si algo dizia que não era correcto.


Já lá vão uns anos em que o pai abateu este belo navalheiro

Foram muitas as críticas que me fez quando eu nos primeiros passos na caça punha o pé em ramo verde. Foram com estas que ao longo dos meus anos de caçador me fui moldando, e com o pai fui aprendendo a caçar a sério procurando javalis, perdizes e as esquivas lebres.

Por incrível que pareça eu nunca gostei de caçar acompanhado. Sempre me considerei um caçar “solitário” e nunca encontrei ninguém que me desse prazer em caçar ao meu lado. Porém foi com o pai que encontrei alguém que não só me da esse prazer como também alguém que se entende comigo como ninguém. Basta um olhar, um assobio para nos entendermos e percebermos sem efectuar qualquer diálogo da volta a dar, ou outra coisa qualquer. Nunca necessitamos de andar aos “berros” dentro do mato para sabermos que as perdizes vão à nossa frente ou alguma lebre que se vai a furtar da minha braco.

Costumo dizer que nós os dois juntamente com a minha “pepa” fazemos uma tripla terrível atrás das esquivas perdizes que nos dão cabo do corpo mas um enorme prazer em caça-las.

A caça de eleição do pai sempre foi os javalis, em especial as esperas. Conhece todos os recantos na “nossa” zona e sabe bem como entalar um porco nas diferentes estações do ano. Quando era gaiato fazia-me confusão quando o pai dizia “hoje vão morrer 18 javalis (em montaria). “Os porcos estão ali e ali”.

Como é óbvio, fui-me levando pela sua “paixão” e hoje creio que tem um rival à altura, e percebo porque tinha aqueles comentários. Não falhava muito!!!


Belo solitário

Desde muito cedo o pai me foi colocando nas cearas de trigo naquelas noites de verão que nos fazem encher os pulmões. Naquela época caçava-se todos os dias e se não fosse a mãe a por um travão na situação penso que até no dia de natal o pai iria fazer mais uma noite levando-me com ele. Outros tempos!


Esperas de Inverno. Navalheiro e seu escudeiro, há cerca de quinze anos atrás

Hoje pensando melhor nas muitas esperas a que me submeti pelo “vicio” que ia crescendo no meu corpo aliado à idade que tinha, só posso concluir que a caça é algo que nasce dentro de nós proporcionando-nos sentimentos a que nos submetemos a situações que depois de reflectirmos surpreendemo-nos com nós próprios.

Recordo-me de uma noite de Inverno em que saí quase a ombros derivado ao frio. Já não sentia os dedos das mãos e as pernas pareciam que não funcionavam. Creio que se ficasse ali mais uma hora ou duas a situação complicava-se.

Não era muito normal um gaiato daquela idade horas e horas a fio em buracos que só os javalis conheciam, em noites escuras como o “inferno”, juntamente com o pai esperando por uma oportunidade de poder “furar a casaca” a um porco.

O pai encorajava-me e via até o­nde ia o meu limite, e foi assim que o comecei a acompanhar não em cevadouros, pois dizia que ai só caçam os meninos, mas nas charcas, nas cearas e sobretudo nas passagens.

Hoje dou-lhe razão, pois o cevadouro é a forma mais fácil de os abater. Caçar a sério é à antiga, a ler bem o chão, os pormenores insignificantes para muitos mas que muito dizem. Foi assim que aprendi a caçar com o pai e a quem devo muito no que toca à caça desse animal tão fascinante.


Pai em mais uma espera 96

O Javali, era um animal mal “amado” na altura em que comecei a caçar, era um predador de caça menor e desprezado por todos. O pai, abatia-os pela carne mas sobretudo pelo prazer de caçar e foi ai que iniciei os meus primeiros passos como também nalgumas montarias que organizava todos os anos e que eu tinha todo o gosto em participar e ver com toda atenção como o pai fazia e como tratava de toda a logística para bem receber as pessoas que participavam nesse evento.

Foi ai que conheci hoje muitos que hoje se intitulam de catedráticos mas que se esqueceram quem os ensinou e lhes deu a oportunidade de poder pela primeira vez abater o seu primeiro javali tanto em esperas como de montaria. O Fernandes continua o mesmo homem, a mesma pessoa simples que sempre foi, pena é que muitos lá por terem abatido um centésimo do que ele abateu e ter vivido experiências que viveu, cresceram mais uns centímetros. Podem saber muito de balística, de projécteis, de armas, mas falta-lhes algo tal como a humildade e a experiência e o conhecimento de muitos anos no campo. O pai nunca ligou a “balas” a projécteis nem a essas “mariquices” a que também eu dou importância. Como costuma dizer “as de ponta de prata é que são boas para a 300”. Eu sei que são as Silvertip e que excelentes projecteis são. Para o pai são balas e saindo da sua 300 Win Mag, são mortíferas!

Não sabe nem quer saber se tem 100 pontos e já é medalha de bronze, não anda de fita métrica na mão tentando mostrar que também ele sabe medir um troféu de veado, para o pai todos são veados (excepto varetos e cervas), é mais um lance, mais um troféu para eu levar até ao Carlos para poder “arranjar” e colocar na sua sala.

Costumo dizer que nunca se “especializou”, nunca deu importância às novas “tecnologias” e aos interesses da nova vaga de caçadores que apenas tem oportunidade de ter mais contacto com o mundo da caça maior através das tabelas balísticas.

Para o pai não há tabelas, mas sim experiências acumuladas anos após anos.


Um bonito veado 2004
 

Com o pai recordo muitas histórias de caça às perdizes e sobretudo aos javalis.

Lembro-me de uma espera que fiz em que disparei a um bom javali.
Fui buscar o pai para me ajudar a pistea-lo, e nunca mais me esqueço das suas palavras.
Depois de lhe contar todos os pormenores virou-se para mim e para incrível que pareça, riu-se e disse. “Esse porco está morto perto daquela azinheira de bolota doce lá em baixo no barranco, morrem lá todos!!!”. Olhei para ele e com ar de troça, disse-lhe que estava a brincar, pois era impossível o pai saber o­nde o porco estava. Pensei que era mais uma das suas manias, mas ao chegar ao local, dirigi-me imediatamente para o sítio o­nde o porco tinha caído, enquanto o pai desaparecia pelo mato fora. Chamei-o umas quantas vezes irritado com o seu “desaparecimento” e quando eu já no trilho seguia o rasto de sangue lá bem longe o pai grita “Anda cá que ele está aqui, eu não te disse? Morrem cá todos…”.
A tropeçar pelo mato fora, dei de caras com o pai agarrado a um belo navalheiro com vinte centímetros de navalhas.


De espera, abati este belo navalheiro, o tal da azinheira!
 

Pela sua cara e pelos seus sorrisos sentia que o pai tinha orgulho em mim, sentia que estava feliz tal como eu, não só pelo belo animal mas também porque o pai me tinha dado a oportunidade de poder abater aquele animal. Foi ele que me indicou o local para efectuar aquela espera o­nde na noite anterior esse porco o tinha “enganado”.

Uma das coisas que sempre admirei no meu pai foi nunca ter sentido da sua parte alguma inveja, nem de mim, nem de companheiros que teve.

Foram imensos os navalheiros que deu a abater a muitos “amigos” que se foram “encostando” vá se lá saber porque. Amigos esses, os tais catedráticos de hoje, mas para ele era apenas mais um javali, mais um animal e afinal de contas eram os seus amigos.
Por incrível que pareça, na parede da sala apenas estão penduradas três tábuas ostentando três belos troféus por ele abatidos em comparação ao número de javalis que teve oportunidade de poder abater e que abateu nos seus mais de trinta anos de caça maior em que começou como todos os outros a caça-los para proteger as cearas de trigo do avô, em tempos em que nem se sabia que existiam javalis. De caçadeira foram muitas as noites, muitas as horas em que o pai se dedicou a este animal e lembro-me de muitos navalheiros. Começou como todos a caçar “furtivamente” mas eram outros tempos, e quem não o fez!

Foi assim que todos os caçadores de javalis começaram.

Relativamente à caça menor, as perdizes e as lebres foram sempre a sua paixão e foi graças ao pai que aprendi a caçar a sério às perdizes e a saber procurar as lebres. Nunca me esqueço das suas palavras que ainda hoje mas relembra quando caçamos. “Um sempre encostado às paredes… elas gostam muito de estar ai”, “caçar não é andar a correr de um lado para o outro, para correr, tens as pistas de atletismo…”, “com calma, elas mais cedo ou mais tarde deixam-se chegar, é uma questão de tempo”.

Recordo-me como se fosse hoje de uma tarde na nossa aldeia. Moí a cabeça ao pai para irmos dar uns tiros aos "passarinhos" (tordos). O pai já arreliado agarrou em meia dúzia de caixas de cartuxos e lá fomos nós. Havia muito tordo nessa altura, e imediatamente começamos a disparar uma vez cada um pois era um "gaiato na altura".

Eu nem lhes tocava e o pai lá ia me ensinado como deveria medir distancias e na vez dele lá foi abatendo uns tordinhos. Não sei quantos tiros dei, mas gastamos umas oito caixas de cartuxos. O pai ainda conseguiu um belo "ramalhete" e eu só no último tiro é que abati um passarinho. Nunca mais me esqueço da alegria do pai ao apanhar esse tordo, estava feliz e ria-se abraçando-me a dizer "boa, boa"! O que um simples tordo conseguiu despertar entre pai e filho.


Mais uma espera, mais um belo javali
 

Lembro-me de uma caçada as lebres á cerca de dez anos. Ainda hoje me lembro com saudades desse dia.

Acordei de manhã e estávamos já no final da época de caça. O pai disse-me para irmos dar uma volta num terreno que só ele sabia, ficando logo excitadíssimo pois quando diz, eu é que sei, é porque é coisa boa. Assim foi, saímos e fomos “bater” umas tapadas escondidas no meio do alto Alentejo.

Saímos do carro e o pai “ordenou-me” a ir á sua esquerda no meio do pasto enquanto ele iria sempre junto à parede. Assim foi e uns 500 metros à frente, entrei numa zona de carrascas altas. O pai olhou para mim e pelo olhar percebi imediatamente que se iria adiantar para se colocar certamente nalguma passagem.

Assim foi, e poucos segundos depois, salta uma “ruça” à minha frente sem que me desse oportunidade para disparar. Grito e oiço um tiro. Pouco depois lá estava o pai, afagando aquele belo animal. Ria-se e com aquele ar de contente dizendo “já cá esta uma, eu não te dizia, aqui o velhote é que sabe, ahhhhhhhhh”.

Depois de a pendurar à cintura à “antiga” deu as coordenadas para “batermos” a próxima tapada e lá fomos nós. Eu de um lado e o pai à esquerda caminhávamos muito devagar pois não tínhamos cão e de repente vejo uma cama muito fresca junto a um tojo. Dou um leve assobio e o pai percebeu perfeitamente fazendo sinal com a cabeça, entendendo logo a mensagem de que eu tinha visto uma cama. Encostado a parede pé ante pé caminhava até que entra numa pequena “ramada” de mato que lhe dava pela cintura e não devia ter mais de vinte metros de comprimento. Segundos depois grita “ai vai uma…”. Ainda hoje recordo o enorme lebrão que dali saiu de orelhas junto ao corpo. Infelizmente para ele eu já tinha adivinhado o seu percurso tombando-o imediatamente com uma “bagada” de chumbo cinco.


Uma manha ás perdizes no Tejo Internacional. O pai, eu e a “pepa” 2006
 

O pai dizia-me que aquelas tapadas eram infalíveis para as lebres e só no final da caça é que elas lá estavam. Dizia que era assim que ele e o avô Fernandes “faziam” o dia. Em menos de duas horas a caminhar, duas lebres não era nada mau.

Durante alguns anos foi assim que conseguimos muitas outras boas caçadas naquele local, sempre no final de época tal como o pai dizia. Foi com o pai que também comecei a “ganhar” o gosto pela caça às galinholas, caça esta que adora, não por uma questão de moda como muitos hoje a praticam, mas porque esta ave sempre o fascinou. Lembro-me em pequeno o pai comentar os lances de algumas galinholas, e da forma como os relatava.

O pai costumava dizer que a caça à galinhola não é para todos mas para os verdadeiros apaixonados pela caça de pena.

Na verdade não são todos os caçadores que se dedicam a esta ave com paixão. Os levantes são poucos e as oportunidades de poder disparar são ainda menores e nem toda a gente está disposta a caminhar quilómetros para poder caçar nos locais de maior querença um simples pássaro. Só um verdadeiro apaixonado percorre densos estevais para poder visualizar esta bela ave duas ou três vezes nas melhores das hipóteses. Tem que se conhecer bem as crenças e os hábitos para poder ter algum sucesso. Porem é sempre um sucesso mínimo visto que os cobros são sempre poucos ou mesmo nenhuns.


Uma manha no Tejo Internacional com o pai, 2005
 

Foi por isso mesmo que este natal, decidi comprar ao pai uma Setter Inglesa de excelentes linhas de caça tentando esquecer o “Lirão” que já morreu há uns 7 anos.

A partir daí, o pai nunca mais teve cães ficando sentido com a sua morte.

Quantas e quantas vezes o pai fala do “Lirão”, podengo médio do canil de Veiros. Um companheiro e amigo de muitas e muitas caçadas com uma inteligência acima da média.

Por incrível que pareça o pai falava com ele! Que saudades!

Também ele me marcou para toda a vida. Foi com o “Lirão” que abati o meu primeiro coelho, e nunca mais esquecerei. Como é possível um simples coelho nos fazer sentir sensações tão grandes. Pendurado à cintura afagava-o como se fosse o maior troféu do mundo. Tinha para mim tanta importância como o maior dos maiores “cambacos”.

Foi com ele que me fiz caçador e marcou não só ao pai como toda a nossa família.
O pai, parecia um menino quando lhe apareci com esta nova cachorra ao colo. Vamos ver como se comporta!!!

Com os seus sessenta e dois anos de idade, muitos são aqueles que não o conseguem acompanhar por montes e vales atrás das esquivas perdizes que nunca viram farinha, nem nunca souberam o que é ser “mansas”.


Em mais uma espera, a cerca de o­nze anos a trás
 

Com ele acompanharam alguns bons caçadores que ficaram na memória e já partiram, outros que não deixaram recordações. O pai continua a ser o mesmo, e hoje é o meu companheiro de caça a quem faço questão de nunca o deixar e acompanhar em muitas caçadas ao seu lado. Com ele tenho passado alegrias, e momentos inesquecíveis, é o meu pai, o meu companheiro que certamente me dará muitas saudades se algum dia me deixar sozinho a caminhar pelo “nosso” Alentejo ou nas muitas esperas naquelas noites escuras de arrepiar.

Nunca ninguém escreveu sobre ti, nunca ninguém teve a amabilidade de dizer obrigado pelos navalheiros que “deste a abater”, pelas perdizes que “mataste” e ofereceste porque para ti a caça é para o grupo, pelos momentos que viveram contigo, pelo excelente companheiro de caça e amigo que sempre foste. Eu escrevo não para dizer obrigado pelo belo troféu, mas para dizer que sinto orgulho em seres meu pai e sobretudo meu companheiro de caça.

Para ti pai, um abraço!

 

 
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